Quando o salário fica igual e as contas do mês sobem, o poder de compra encolhe sem que nada mude nos hábitos de consumo. É esse o efeito da inflação.
Em agosto de 2026, o movimento foi o contrário: o índice oficial registrou deflação de 0,32%, puxada pela conta de luz. No acumulado de 12 meses, a alta caiu para 4,22%, afastando-se do teto da meta.
Confira, a seguir, o que faz os preços subirem, por que eles caíram no mês passado e o que ajuda a proteger o dinheiro.
O que é inflação e como é medida
Inflação é o aumento persistente e generalizado dos preços de bens e serviços em uma economia. Atinge supermercado, transporte, habitação e serviços ao mesmo tempo, e não apenas um item isolado.
No Brasil, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) calcula mensalmente o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), com base numa cesta definida pela Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF).
O índice cobre famílias com renda de 1 a 40 salários mínimos, em dez regiões metropolitanas, além de Goiânia, Campo Grande, Rio Branco, São Luís, Aracaju e Brasília.
Há também o Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC), do mesmo instituto, voltado a famílias que recebem de 1 a 5 salários mínimos, com chefe assalariado. Ele serve de referência no reajuste do salário mínimo e em acordos salariais de diversas categorias.
Principais causas da alta dos preços
Cinco fatores explicam a maior parte dos movimentos de preços no país, e eles raramente agem sozinhos:
- Aumento da demanda: a procura cresce mais rápido que a oferta e os preços sobem
- Alta nos custos de produção: matéria-prima, mão de obra ou impostos mais caros pressionam o preço final
- Desvalorização da moeda: com o real mais fraco, o importado encarece e o efeito se espalha, como no combustível
- Aumento da oferta monetária: mais dinheiro em circulação sem crescimento equivalente da produção pressiona os preços
- Especulação: a expectativa de alta futura já muda o consumo e a formação de preços no presente
Os dois primeiros dão nome a tipos distintos de inflação. Na inflação de demanda, muita gente quer comprar o mesmo produto ao mesmo tempo e a oferta não acompanha. Na inflação de custos, o encarecimento parte da produção: o combustível sobe, o frete sobe junto, e a conta chega ao preço do arroz.
Como a inflação afeta o poder de compra
O efeito é silencioso porque não acontece de uma vez. O mesmo valor passa a render menos, mesmo sem nenhuma mudança nos hábitos de consumo.
Com o IPCA acumulado de 4,22% em 12 meses, quem gastava R$ 1.000 por mês em contas básicas precisa de cerca de R$ 42,20 a mais para manter o mesmo padrão.
Famílias de menor renda sentem mais. Os alimentos representam aproximadamente 25% do peso no INPC, contra cerca de 21% no IPCA, porque quem ganha menos gasta proporcionalmente mais com comida.

Por que os preços caíram em agosto
O IPCA de agosto foi negativo em 0,32%, contra alta de 0,07% em julho. O resultado tem explicação concentrada em um item.
Habitação caiu 1,87%, o menor resultado para um mês de agosto desde o Plano Real. O motivo foi a energia elétrica residencial, que recuou 7,63% com a incorporação do Bônus de Itaipu nas faturas do mês.
Transportes recuaram 0,86%, com queda de 13,17% nas passagens aéreas e baixa nos combustíveis. Alimentação e bebidas caíram 0,34%, puxadas pela batata-inglesa, que despencou 19,89%, além de cenoura, cebola e tomate.
Na direção oposta, despesas pessoais subiram 1,30%, a maior alta do mês, impulsionadas pelo aumento de 19,59% no cigarro.
| Grupo | Variação em agosto |
|---|---|
| Habitação | -1,87% |
| Transportes | -0,86% |
| Alimentação e bebidas | -0,34% |
| Comunicação | -0,09% |
| Vestuário | 0,12% |
| Saúde e cuidados pessoais | 0,23% |
| Educação | 0,47% |
| Artigos de residência | 0,64% |
| Despesas pessoais | 1,30% |
A inflação não é igual em todo o país
O índice nacional é uma média, e a diferença entre as capitais é grande. Em 12 meses até agosto, Goiânia acumulou 5,75%, enquanto Curitiba ficou em 2,46%.
Oito capitais ficaram acima dos 4,5% que balizam o teto da meta: além de Goiânia, aparecem Fortaleza, com 4,91%, Aracaju, com 4,70%, Campo Grande e Recife, ambas com 4,69%, Vitória, com 4,59%, e Porto Alegre, com 4,54%.
A meta do Conselho Monetário Nacional se aplica ao índice nacional, não a cada capital. A comparação serve apenas para dimensionar quanto os preços variaram em cada lugar.
Em agosto, a maior queda foi em Curitiba, de 0,64%, por causa da passagem aérea e da energia elétrica.
Isso explica por que a inflação pessoal difere da oficial: além da região, pesa o que cada família consome. Quem gasta mais em itens que subiram acima da média tem inflação maior que o índice divulgado.
Como o governo controla a inflação
O Banco Central usa a taxa Selic, hoje em 14,00% ao ano, como principal instrumento. Quando os juros sobem, o crédito encarece, o consumo diminui e a pressão sobre os preços cede. O efeito não é imediato: leva meses para chegar às prateleiras.
O governo também pode reduzir gastos públicos, ajustar impostos ou ampliar a concorrência em setores específicos, com a liberação de importações, por exemplo.
Desde 2025, o sistema de metas é contínuo, e não mais por ano-calendário. A meta é de 3%, com tolerância de 1,5 ponto percentual para cima ou para baixo, o que fixa o piso em 1,5% e o teto em 4,5%.
Se o IPCA ficar fora desse intervalo por seis meses consecutivos, o Banco Central precisa publicar carta aberta explicando as causas e o prazo para o retorno. A regra está no Decreto nº 12.079/2024.
Inflação, desinflação e deflação
| Conceito | O que significa | Efeito no dia a dia |
|---|---|---|
| Inflação | Preços sobem de forma persistente | Poder de compra diminui aos poucos |
| Desinflação | Preços sobem, mas em ritmo mais lento | Preços seguem mais altos, com aumento menor |
| Deflação | Preços caem de forma generalizada | Pode reduzir lucro das empresas e elevar desemprego |
| Hiperinflação | Inflação extremamente acelerada | Perda rápida de valor da moeda e instabilidade |
Agosto ilustra os dois primeiros conceitos ao mesmo tempo. O mês teve deflação, com queda de 0,32%, mas o acumulado de 12 meses segue positivo, em 4,22%. Ou seja, os preços continuam mais altos que há um ano, só que subindo menos.
O INPC seguiu o mesmo caminho: caiu 0,32% em agosto e acumula 3,98% em 12 meses, abaixo do IPCA no período.
Como se proteger no dia a dia
- Compare preços entre fornecedores antes de fechar compras recorrentes
- Reveja assinaturas e gastos fixos que deixaram de ser necessários
- Negocie reajuste salarial com base no índice acumulado, e não na percepção de aumento
- Prefira investimentos que rendam acima da inflação, como o Tesouro IPCA+, em vez de deixar o dinheiro parado sem correção
Organizar as contas do mês em um só lugar ajuda a enxergar rapidamente o impacto da variação de preços no orçamento.
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